Assertividade discutida.

Antes de abordar o assunto propriamente dito, quero dizer que tenho lido artigos sobre assertividade com um conteúdo interessante do ponto de vista generalista.

Esses artigos dão uma idéia geral do conceito e tentam englobar tudo o que se possa requerer do ser humano, interessado em conhecer o conceito e aplicá-lo.

No entanto a maior dificuldade que vejo nesses mesmos artigos é que eles misturam posturas pessoais, que dificilmente podem ser traduzidas em palavras, dada a diversidade de formas como o ser humano se comunica.

Tento então, separar um pouco mais as coisas:

Os articulistas, no decorrer das aplicações do conceito, começaram a notar que, esbarravam com o sujeito que pratica a ação e o sujeito que recebe a ação.

Alguns deles fazem a análise de assertividade focando a idéia no sujeito da ação, outros tentam estabelecer a relação entre os dois sujeitos. Aí então, surgem os problemas:

1-Uma proposta do conceito centrada no sujeito da ação parece egoísta para os nossos moldes moralistas, e isola o sujeito em uma atitude considerada individualista e centrado em si mesmo, o que não combina com a tentativa de ser assertivo.

2-Uma proposta centrada no sujeito da ação e no sujeito recebedor da ação entra num aspecto de complexidade, que nem todos conseguem administrar. Mas… você é humano e vive num mundo de relações!!

O desdobramento disso recai sobre duas possíveis atitudes:

[box] 1- O que fazer? Ser assertivo

2- Como fazer? Ser assertivo, sem ferir o outro.[/box]

Ora, ao acrescentarmos “sem ferir o outro” estamos nos propondo uma atitude arrogante, visto que mal temos acesso sobre nossos próprios comportamentos e emoções, e queremos que o “assertivo” tenha acesso também sobre os comportamentos e emoções do outro.

Insistimos em que assertividade, agressividade e passividade são três formas de abordagem.

Pergunto: como saber se o fato de eu falar o que penso – que para mim seria “assertivo” – não vai ofender o outro, por mais que eu me esforce para ser empático?

Há aí, uma confusão filosófica, uma vontade de poder (como diria Nietzsche) de supor que sabemos o que ofende o outro.

É fato sabido, que nossos humores vêm atos, fatos iguais de formas muito diferentes, dependendo de nosso estado emocional.

A mesma ocorrência, em momentos diferentes, provoca reações diferentes na mesma pessoa.

Olhe para você, por exemplo:

Que diferença você vê entre chegar ao trabalho com tempo hábil para cumprimentar as pessoas a sua volta, sentar na sua mesa, etc., de chegar esbaforido (a), atrasado, e encontrar sua sala aberta, sua cadeira fora do lugar, papéis por organizar, e desafortunadamente um colega entra com você e começa a falar suas mazelas?

Provavelmente você reagirá a essa “visita” de forma diferente nas duas situações.

Para ser “assertivo” nos moldes propostos, você recebe o amigo, diz para ele que não pode conversar, e que poderiam conversar depois no horário de almoço.

Combina almoçar com ele. Pode ser que tudo corra bem, e você o encontre no almoço e que ele continue contando para você suas mazelas. Você vai achar que foi assertivo.

Pode ser que ele não apareça, pois segundo o que você fica sabendo depois: “Ele nunca te deixou na mão quando você precisou, e agora, por causa de cinco minutos você o dispensou e mostrou que na realidade a amizade de vocês só conta para você quando lhe é conveniente”.

E você se esqueceu que outro dia, ele estava com a mesma conversa e você não estava atrapalhado, e resolveu tentar ajudá-lo ouvindo-o.

Vai fazer o quê com um barulho desses?

Nesse caso a definição de assertividade só é considerada “a posteriori”.

Mas como? Se ela lhe foi definida “a priori”?

Você fez de tudo para ser assertivo, no sentido correto da palavra, deu atenção ao seu amigo, disse “assertivamente” para ele que naquele momento você não poderia conversar, mas que poderia fazê-lo depois, e, no caso do ressentimento o ter impedido de ir ao almoço de vocês, pode esquecer seu conceito tão ensaiado de ser assertivo.

Confusão?

Sim, acredito que seja isso que você sente quando essas coisas acontecem.

Onde fica a parte de não ferir o sentimento alheio?

As pessoas que escrevem artigos esquecem que as teorias são formas didáticas de informar aos outros sobre determinados assuntos, e que, na hora em que isso é tentado no mundo dos relacionamentos, as coisas não saem como o planejado.

A teoria, como ela é proposta tenta dar a ideia que você pode poupar o outro de qualquer sentimento ou emoção desagradável quando você expõe honestamente o que pensa.

As pessoas esquecem o tapão que levaram quando crianças, naquele dia, que viram a tia e inadvertidamente comentaram: “Porque você está tão gorda tia?”.

As pessoas esquecem que em geral, o mundo das idéias e pensamentos, é uma caixa secreta que cada um tem dentro de si.

Quando ousa expor um tiquinho que seja dele, geralmente é visto como grosseiro e sem educação, por mais verdadeira que seja sua observação.

A ponte entre teoria e prática, muito pouca gente sabe transpor. Por isso, nos treinamentos, nas terapias, nos aconselha-mentos, muitos trabalhos vão por água abaixo.

O conceito assertividade, de forma nua e crua, significa falar aquilo que você pensa, diretamente ao seu interlocutor quando uma necessidade se apresenta e assumir as responsabilidades pelo que falou. Está incluído nessas responsabilidades, qualquer decorrência da sua postura: as pessoas gostarem de sua sinceridade, as pessoas se afastarem de você, as pessoas te amarem ou te odiarem, você conseguir ou não seu intento.

O que estou tentando passar para você é que eu acredito ser impossível ter acesso a sentimentos e emoções dos outros, ao falarmos o que pensamos. Uma saída possível para isso é nos conscientizarmos que não temos esse poder de prever a reação das pessoas diante do que quer que falemos.

Você, mais impaciente aí, pode alegar que sabemos quando determinadas coisas ofendem aos outros, que temos uma noção de conduta, que existem alguns entendimentos que estão implícitos socialmente.

Concordo!!

Não tenho necessidade nenhuma hoje, como adulto de dizer que a “tia está gorda”, mas no caso de eu ser dono (a) de uma loja de moda e minha tia quiser comprar tamanho 46 quando sei que ela veste 54, e vai sair por aí com uma roupa da minha loja toda amarfanhada, dizendo que comprou de mim, tenho sim, que dizer a ela que o número dela é 54 e não 46.

O conceito de assertividade é mais complexo do pode dizer uma teoria.

Nele, está implícita a noção de educação.

Não a educação escolar, não o conhecimento de teorias, mas a educação que o sujeito constrói a partir de seus próprios esforços, independente de sua origem, de imposições sociais.

A assertividade se faz necessária quando a falta dela nos prejudica, nos impede de vivermos de forma honesta,quando nos impede de defendermos nossa segurança e bem estar, nossa qualidade de vida.

[box] Não é simples e nem simplista o entendimento do que seja assertiva, mesmo porque ela está pautada sobre um sem número de outros conceitos mais, e todos fazem parte do modo de vida de um ser humano.[/box]

Para ser “assertivo” é necessário muita sabedoria, investimento, dedicação, auto confiança, e outros itens mais que não cabem nessa colocação nesse momento.

Para encurtar a história: Assertividade não é um assunto que pode ser esgotado, acredito que nunca, quanto mais em um pequeno artigo.

Portanto, esse artigo foi somente um intróito para uma série de outros mais que estão por vir.
Iná Poggetti

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