Civilização Intelectual

O ser humano foi o único bicho a tomar consciência da sua existência “inteligente”, diferenciada dos outros animais habitantes do planeta. O homem caçou, plantou, reproduziu, evoluiu e, finalmente, fez a maior besteira que poderia ser feita: criou a roda. A partir daí a coisa só desandou.
Passados não sei quantos milhões de anos, o homem domina as línguas, cada povo com a sua própria. E também domina todos os assuntos existentes na face da Terra! Já perdi a conta de quantas vezes escutei “não concordo com isso” ou “aquilo que autor “tal” disse faz todo sentido!”. Também já perdi a conta de quantas vezes me responderam “nenhum” ou “um ou dois” quando perguntei a essas pessoas: “Quantas obras de autor “tal” você já leu?”. Mas o ser humano é assim mesmo, bastam apenas algumas páginas de um livro e pronto, já se pode ter uma opinião concreta sobre o assunto!
Um exemplo: no momento estou estudando Psicologia. Em minha classe, tenho colegas formadores de opiniões aos montes. Muitos deles não gostam de Skinner (o pai do Behaviorismo) por que suas teorias “são mecanicistas e reducionistas”. Quando ouço isso, já de cara meus ouvidos doem. Eles soltam essas palavras bonitas e complicadas com um ar de quem domina toda a teoria do Behaviorismo sem nem precisar ler mais que os textos que nos são passados para estudarmos para as provas, textos estes que não contam com mais de 20 páginas. Os livros de Skinner costumam ter mais de 200 páginas.

Pois bem, quando estou de bom humor, pergunto também: “Você sabe o que significam essas palavras que você usou?”.

Às vezes fico apenas com um “sei sim”, as vezes me explicam (porcamente) o que significam as palavras, o que já é algum começo.

Certa vez caí na besteira de perguntar por que um desses colegas achava a teoria reducionista. A resposta foi “por que ela reduz o homem à condição de um rato”. Ou seja, a pessoa usando palavras bonitas e complicadas mal sabia que ratos são usados em testes laboratoriais pela psicologia experimental (que é embasada no Behaviorismo) pelo simples fato de eles compartilharem comportamentos padrões com seres humanos. Pior ainda: quem diz esse tipo de coisa certamente não consegue prestar atenção no dia a dia e em todos os reforçamentos, punições, nas generalizações, discriminações e afins. Se você conversa com uma pessoa e a conversa é gostosa, você certamente irá conversar com ela novamente, não? E se a conversa é extremamente desagradável, você passa a se esquivar ou fugir da pessoa, não? Pois é.
Isso não se limita a opiniões desfavoráveis. Muitos gostam do Behaviorismo e o defendem a unhas e dentes. Mas a situação é parecida com a de cima.

Quando pergunto a muitas pessoas quantas obras eles conhecem de Skinner para que tenham gostado tanto, a maioria me dá nomes de capítulos de livros usados na faculdade. Não satisfeito, eu costumo perguntar: “Mas você não chegou a ler ‘Ciência e comportamento humano’ ou ‘Comportamento verbal’ ou ‘O comportamento dos organismos’?”. A resposta geralmente é uma cara de interrogação seguida de “não tenho paciência para ler tudo isso”. Nada mudou desde o parágrafo anterior. Ainda é formada uma opinião baseada em absolutamente NADA. A leitura constante é, na minha humilde opinião, um requisito mínimo para que se possa pensar em algo concretamente de maneira boa ou ruim. O ideal seria leitura combinada com experiência prática, independente do que se acredita.

Por exemplo: como uma pessoa pode dizer que brócolis é ruim se nunca experimentou? Isso é atitude de criança birrenta!
A fim de reforçar o que digo, usarei mais uma situação frequente que vejo no meu dia a dia: o ódio e o amor por Freud. Vamos ao ódio.

Muitos dos meus colegas de classe ouvem com atenção as palavras do nosso professor de psicanálise enquanto ele solta palavras até então desconhecidas por eles como “catexia”, “onírico” ou “recalcamento”. Conforme o semestre foi passando, fui notando já as opiniões formadas acerca dessa linha de pensamento na maioria das pessoas.

Umas amavam Freud, outras queriam distância de sua teoria “pervertida”.

Pois bem, como pessoa curiosa que sou, fui tentar absorver a sabedoria infinita dessas pessoas, pois gosto muito de Freud e gostaria de saber qual foi o impacto que ele causou, quase 100 anos depois de morto, em uma pequena classe de tantos alunos de Psicologia.

Primeiro conversei com alguém que não gostou de suas teorias, alguém que fazia caras de nojo durante as explicações do professor. Me diverti bastante. Ouvi coisas como “velho tarado” e “é tudo sexo!”. Muita gente não consegue nem mesmo compreender o conceito de sexualidade para a psicanálise, mas isso não os impede de formarem opiniões concretíssimas acerca do assunto, sem nem ao menos essas pessoas precisarem se aprofundar.

A segunda parte divertida foi conversando com pessoas que amaram Freud. Essa parte da minha diversão chegou a me provocar gargalhadas. Terei de me restringir nessa parte, mas posso fazer um breve resumo da coisa: pessoas diziam que Freud era maravilhoso, que tudo o que ele dizia é verdade, e que eles sabiam disso por que faziam muito ou pouquíssimo sexo.
Quero deixar bem claro que isso não se restringe apenas aos autores que citei.

Em meu dia a dia, vejo isso acontecer com TODAS as linhas de pensamento existentes na psicologia, e até mesmo profissionais com anos de experiência soltam essas batatadas.
Para finalizar, espero ter sido claro sobre minha posição: para se poder dizer que algo é bom ou ruim, é preciso muito mais do que uma breve leitura (bastante mal feita, diga-se de passagem) de algumas páginas de um livro.

Ainda mais quando essas páginas trazem palavras que não estão presentes no nosso dia a dia, palavras que exigem uma pesquisada no tio Google ou no pai dos burros, o Aurélio, que, infelizmente, está sendo cada vez mais deixado de lado pelas pessoas tão intelectuais e tão importantes que inventaram a roda e hoje dominam e destroem esse planeta chamado Terra.

Luca Poggetti

2 comments on “Civilização Intelectual
  1. Mariana Alleoni disse:

    Olá Luca!

    Sou amiga de sua mãe,…..!
    Não conheço o pessoal que você citou no artigo,…(risos), mas,…entendi bem a sua posição sobre o modo como as pessoas levam suas vidas!
    “Ouviu o vizinho falar,….pensou um pouquinho,….concluiu, e, repassa as teorias inquestionáveis a tds” ,….ou seja,…estuda-se pouco, observa-se pouco, compara-se pouco,…e por ai vai, para se formar uma opinião, e, assim orientar terceiros.

    Será esse o propósito de seu artigo!? Se sim,…ótimo, se não,…me desculpe, é que hoje é sábado e acordei as 6:20h,…..ehuehuehe!!
    Sucesso!! Você tem tudo para,….

    Um abraço Mariana

    • admin disse:

      Oi Mariana, tudo joia?

      Era isso mesmo que eu queria passar. É muito comum as pessoas serem experts sem terem conhecimento algum sobre qualquer coisa. Passe em um barzinho na noite de sábado, perto das 23:00, que você achará inúmeras pessoas “perfeitamente capacitadas” a governar um país, todos muito entendidos de política. As vezes eu até me pergunto: “Porque temos a Dilma como presidente, se temos tantos bêbados experts em política?”. E isso se aplica a todas as áreas, infelizmente. Sempre tem um super mega hyper entendido de um assunto, e esse entendido sabe tanto da coisa por que um dia leu numa coluna de fofocas do jornal que aquilo era daquele jeito.

      Mas tudo bem. Lhe agradeço bastante por suas palavras e fico muito feliz que tenha gostado do artigo. Espero que goste dos meus artigos futuros.

      Um abraço
      Luca

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