Desamparo
“Ninguém Me Ama”
(Antonio Maria; Fernando Lobo)
Ninguém me ama
Ninguém me quer
Ninguém me chama
De “meu amor”
A vida passa
E eu sem ninguém
Ninguém me abraça
Não me quer bem.

Vim pela noite tão longa,
De fracasso em fracasso
E hoje, descrente de tudo
Me resta o cansaço,
Cansaço da vida,
Cansaço de mim,
Velhice chegando
E eu chegando ao fim

A letra acima é a obra prima do desamparo. O sentimento do desamparo é magistralmente descrito nessa letra dos autores acima e melhor ainda quando interpretada por Nora Ney.
A música é um samba canção de 1952 (nem eu havia nascido ainda…ahah) mas ainda hoje é atual. Ela é escrita em lá menor.
Quase nem vejo mais razão para continuar escrevendo, pois a música, a letra e a interpretação da cantora juntas, completam o círculo do sentimento de “desamparo”, mas propus-me a essa tarefa e vou adiante.
O sentimento do desamparo, retratado na música repete-se hoje em dia com a mesma intensidade de quando os autores a escreveram.

Acredito que antes deles, também ocorria. Eles só foram “felizes” (se me perdoarem o trocadilho com relação ao tema), pois conseguiram escolher palavras super apropriadas para tal tema. A música também comporta toda a desolação que acompanha o sentimento.

A interpretação da cantora endossa todo o cansaço da vida, cansaço de si mesma, como diz a letra.

Enfim, o sentimento de desamparo é uma das piores coisas que se pode sentir, viver…. diria que é a morte em vida, o horror dos horrores, o desvalor personificado. A pessoa definitivamente não vê saída…. ou não quer ver uma saída.

Afinal, o valor dela é paradoxalmente o desvalor que ela mesma prega sobre ela. Isto é: ela cresce sendo reconhecida como uma pessoa com essas características; sofredora, impotente diante do sofrimento e, paradoxalmente heróica, pois “luta” muito na vida. Só posso imaginar tal confusão de avaliação, devido à forma que desenvolvemos atualmente de repetirmos conceitos sem pensar no significado que eles têm.
Embora pessoas assim possam parecer somente voltadas pra si mesmas e para seu sofrimento, elas são fortemente ligadas ao que se pensa delas. São fortemente impelidas a continuar pela admiração que provocam, pela “luta” que demonstram travar todos os segundos e minutos de seu viver. No final das contas, são pessoas bastante egocentradas!
Também vejo pessoas com essas características serem críticas e moralistas em relação a manifestações de alegria e prazer.
Covardia… assim define Houaiss num dos seus itens. Auto-piedade, acrescento eu.
O apego a essa forma de emoção provê inclusive características físicas diferenciadas para essas pessoas. São pessoas desanimadas, negativas, mal arrumadas, ou arrumadas de forma grotesca, com musculatura facial caída, despencada. Parece que a lei da gravidade exerce poder sobrenatural sobre elas.
Pessoas dependentes, lamurientas, que pedem ajuda com os olhos e com o “projeto” de sorriso amarelo que se esforçam para exprimir eventualmente.

Sintomas? São muitos. Cansaço, letargia, dores de todos os tipos que se possa imaginar, crítica acirrada àqueles que riem por “qualquer coisa”. Afinal, essas pessoas estragam o clima do desamparado com sua alegria.

Diria que é um “way of life”.
Quer dizer: pessoas assim sofrem como meio de vida. Sofrem como única forma conhecida de ser e de ver o mundo. Com isso, inclusive, sentem certo prazer, pois segundo “entendimento comum” hoje em dia pensa-se nessas pessoas como heroínas.
Recebi de uma amiga um e-mail interessante outro dia relacionado com o assunto que estou escrevendo para você.
Um sábio mandou o aprendiz colocar uma colher de sal dentro de um copo de água e o mandou beber. E, perguntado do sabor, o jovem disse logicamente que era ruim.
Então o sábio mandou o jovem jogar uma colher de sal dentro de um imenso lago, e pegar um copo daquela água e beber. O jovem experimentando daquela água pode notar que ela era doce e saborosa. E aí vem a conclusão sobre o sofrimento: o sofrimento existe!! O que muda é a forma como damos valor a ele. Se valorizamos mais aquilo de ruim que nos cerca então estaremos bebendo do copo de sal o tempo todo. Mas se valorizarmos o que temos, ao invés do que não temos ou aquilo que perdemos, então o sabor da água do lago estará sempre em nossa vida.
Da mesma forma existem muitas outras maneiras de olharmos para a vida que não a forma depreciativa e sofredora costumeira.
Quando sob efeito do desamparo, olhando para um recém nascido, os pensamentos que tomam conta daquele ser normalmente são…. “uma criança tão linda, nesse mundo cruel”…
Quer evento mais exuberante e maravilhoso do que um nascimento de uma criança? No entanto, o sentimento do “desamparo” consegue destruir toda a magnitude do momento. Consegue quebrar todo encanto da ocasião. Consegue destruir sonhos e projetos futuros.
Como acha que uma criança nascida e criada em tal ambiente se sentirá na vida?

É provável que o sentimento do “desamparo” no adulto tenha vindo também de um lar em que imperava o sentimento do “desamparo”. Não nego as possibilidades de sermos influenciados pelo ambiente em que convivemos. Mas, convenhamos: tem uma idade que nos permite crítica e avaliação. E isso varia de pessoa a pessoa; a decisão de nos mantermos de uma certa forma, ou de mudarmos aquilo em nossas vidas.

Aliás, conheço até crianças, chamadas “irritadiças” que no meu entender, reagem contra esse mal estar gerado pelo clima criado em ambientes de “desamparo”.
Muitas vezes esse círculo, – a mãe ou o pai com sentimento de desamparo- e a criança irritadiça – se completam. A criança passa a ser o objeto do sofrimento do adulto e, na verdade ela está é demonstrando um desacordo com o mal estar do ambiente. Essa relação é extremamente poderosa e difícil de se desfazer. Um desconforto literalmente “conforta” o outro desconforto.
Devo esclarecer que estou falando sobre alguns dos aspectos somente do “desamparo”. As teias nas relações das emoções são inúmeras e intrincadas. Mas ao menos, algumas podem ser identificadas e eliminadas. Não sem trabalho e persistência. Não sem que a pessoa que sofre decida isso. Ninguém decide nada por ninguém, segundo o que eu acredito. Portanto, tanto para o “bem” quanto para o “mal” somos responsáveis por nosso modo de vida. Somos responsáveis por vivermos bem ou mal.
…………………..

“O conjunto definido de traços comportamentais e afetivos de um indivíduo, persistentes o bastante para determinar o seu destino” – segundo Heráclito.
A frase acima, refere-se ao conceito de Ética, descrito por Heráclito lá nos idos tempos da Grécia; conceito esse já citado nesse mesmo site, em artigo anterior.
Porque citei o conceito aqui?
Por que vejo relação direta entre o que Heráclito fala e a forma como somos responsáveis por nossa forma de vida. Se acredito que traços comportamentais e afetivos podem ser mudados, acredito que possamos gerenciar nossas vidas e definir como queremos viver e sentir aqui nessa Terra.

Iná Poggetti

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