CONCEITO DE “MENTIRA”, SUAS FORMAS E IMPLICAÇÕES

Pude notar por algumas leituras, que a palavra “mentira” é discutida como um conceito “supostamente” definido previamente, isto é: um conceito geral, não esclarecido.
Talvez alguns protestem dizendo que (como já ouvi algumas vezes): mentira é mentira!! Mas, eu acho que aí é que está o grande problema. Quando começamos a falar sobre alguma coisa que já tem um conceito “supostamente” definido, tendemos a achar que todos falamos da mesma coisa e concordamos nos mesmos pontos do conceito.
À MINHA VOLTA, REPROVAVA-SE A MENTIRA, MAS FUGIA-SE CUIDADOSAMENTE DA VERDADE.” SIMONE DE BEAUVOIR
Deixa eu tentar esclarecer melhor isso: o conceito de mentira é diverso e cada um (se você tiver paciência de pesquisar) tem, na verdade, uma ideia diferente do que seja “mentira”. Isso porque, acredito eu, o conceito é definido principalmente de acordo com a conveniência do momento.
Então, se falo uma mentira “para não magoar alguém” a tendência é de chamarmos isso de “mentira inocente”. No entanto, se falo uma mentira que provoque algum “prejuízo”, já não posso mais classificar de “mentira inocente”.
“PREFIRO UM A MENTIRA QUE ME FAVOREÇA QUE UMA VERDADE QUE ME PREJUDIQUE.” (PROVÉRBIO ESCOCÊS)
Só com essas duas observações posso concluir que, nesse caso o valor moral da “mentira” realmente só é definido DEPOIS da decorrência da tal mentira.
Então, também posso supor que o conceito “mentira” é definido de acordo com os seus resultados, portanto o conceito a priori, não existe!! Me entende?
Tem outras coisas envolvidas no quadro geral. As pessoas supõem que para ser mentira, tem que haver intenção! Como classificar algo de “intencional”? Como se mede isso? Acredita-se na palavra do “mentiroso” que diz que não foi intencional? Ou que foi intencional? Coisa complicada não é?
Está bem! Alguns “protestantes” me dizem que dá pra perceber quando algo é intencional!
Mas, “intencional” a partir do que? Do prejuízo ou da vantagem conseguida pela mentira?
De qualquer forma, acho que também “intencional” ou não é definido de acordo com o que a mentira produziu.
Dadas todas essas interrogações que passam (pelo menos) pela minha cabeça, gostaria de deixar claro aqui que estou pretendendo discutir o CONCEITO de mentira. Dado também que suponho que o conceito que se forme seja posterior ao que uma fala ou ação (posteriormente chamada “mentira”) traz, gostaria de tentar discutir o conceito ANTES DE SUAS CONSEQUÊNCIAS. Vou tentar.
A nossa forma de olhar o mundo nos conduz por caminhos obscuros.
Citando Nietzsche em “Acerca da verdade e da mentira”, chamamos de folha a todas as folhas, embora elas não sejam iguais e não sejam as mesmas.
Da mesma forma chamamos de “homem” a todo ser que apresenta determinadas características. Isto é: juntamos uma porção de coisas que compreendemos em um ser a damos a ele um nome.
Lógico que lingüistas iriam dizer que se não fosse assim precisaríamos de uma infinidade de palavras que talvez não vivêssemos o suficiente para aprender todas. Se para cada folha déssemos um nome….
Mas a questão é que, sempre procuramos similaridades nas coisas e nomeamos essas coisas a partir dessas similaridades. Não sei se a mentira COMEÇA aí, mas sei que já nesse momento, da formação dos conceitos, mentimos para nós mesmos a respeito de tudo o que nos cerca e nos desculpamos dizendo ser impossível de outra forma.
Bem, levado por esse lado, pode se concluir que o ser humano é mentiroso “em potencial”.
Adapta, por razões de incapacidade própria, generalizando tudo a sua volta (embora alguns chamem isso de inteligência…)
Isso nos leva a questões tais como: afinal, o que é mesmo esse mundo no qual vivemos? Se você estiver interessado em um outro conceito controverso que é a VERDADE.
Bem, continuando nesse raciocínio, já que generalizamos tudo, certamente chamamos de A, o que seria B e de B o que seria A e deixamos de nomear eventos outros que consideramos iguais a outros tantos que já presenciamos ou vivemos. Mentimos, portanto a partir daí. Somos intrinsecamente mentirosos.
Essa “liberdade” que nos permitimos nos dá o gancho para o moralismo, creio eu. A partir da generalidade que propomos aos conceitos, nos permitimos entendê-los de acordo com nossas necessidades e, nossas necessidades, pelo que entendo, estão ligadas aos nossos instintos de sobrevivência. Portanto, amigos, MENTIRA, é RELATIVO, como diria nosso amigo Einstein. Depende do que consideramos necessário para a sobrevivência.

“A MENTIRA CONSTANTE E CONSISTENTE É O ÚNICO CAMINHO PARA A SOBREVIVÊNCIA.” (GROUCHO MARX)

Só para exemplificar, “necessidade de sobrevivência” para alguns é estar na moda, para outros é ter o carro do ano, para alguns é ter o que comer no jantar, ou ter o que vestir. Um agasalho no inverno, um aquecedor, um ar condicionado no verão.
Não passar vergonha, ser “politicamente correto”, ser querido, ser famoso, conhecido, pelo menos, ser honesto, etc, também fazem parte do quadro.

… “SE UMA CRIANÇA, PORÉM, TIVER SIDO EDUCADA EM CIRCUNSTÂNCIAS DOMÉSTICAS COMPLICADAS, ENTÃO MANEJA A MENTIRA COM A MESMA NATURALIDADE E DIZ, INVOLUNTARIAMENTE, SEMPRE AQUILO QUE CORRESPONDE AO SEU INTERESSE; UM SENTIDO DA VERDADE, UMA REPUGNÂNCIA ANTE A MENTIRA EM SI, SÃO-LHE COMPLETAMENTE ESTRANHOS E INACESSÍVEIS, E, PORTANTO, ELA MENTE COM TODA A INOCÊNCIA.”

FRIEDRICH NIETZSCHE, IN “HUMANO, DEMASIADO HUMANO”

Falando em “ser politicamente correto” veja o número de palavras que têm surgido ultimamente em nossa língua, em nome de não ofendermos ou tratarmos mal, pessoas “diferentes”. Palavras muitas vezes absurdas e esquisitas que a gente demora pra descobrir o significado. Por exemplo: você sabe o que é “cadeirante”? (também não sei se é assim que se escreve, pois o Word colocou uma linha vermelha embaixo da palavra). Mas, agora, para deficientes físicos que andam em cadeira de roda, a palavra é “cadeirante”. Sem comentários!!
“A terceira idade”… Porque não “velho”? O que muda numa pessoa dizer que ela está na terceira idade ou que ela é velha? Ainda uma questão de ponto de vista: já fui chamada de vó por uma criança e de tia por um adolescente e já chegaram a achar que eu era irmã da minha própria filha!
Os negros, agora são “afro-americanos”. Por qual razão deve se ter vergonha de ser “negro”?
Alguns justificariam dizendo que essas palavras adquiriram um sentido pejorativo e são, portanto ofensivas e, então, voltamos à velha sina de ficar “tapando o sol com a peneira”. Ao invés de abolirmos o sentido pejorativo de nossas vidas, ficamos mudando as palavras, como se elas pudessem mudar o mundo. Já vi muita gente dizendo: “AQUELE afro americano”!! com ar jocoso. E aí? Mudamos de novo a denominação para os negros?

“GOSTO DA VERDADE. ACREDITO QUE A HUMANIDADE PRECISA DELA; MAS PRECISA AINDA MAIS DA MENTIRA QUE A LISONJEIA, A CONSOLA, LHE DÁ ESPERANÇAS INFINITAS. SEM A MENTIRA, A HUMANIDADE PERECERIA DE DESESPERO E DE TÉDIO”. ANATOLE FRANCE, IN “A VIDA EM FLOR”

Nessa toada, daqui alguns anos, décadas talvez, nossos netos estarão falando uma língua que, se vivêssemos para ouvir, não entenderíamos nada. E, possivelmente a condição humana estará ainda pior, pois a essência da mudança não foi feita.
Minha conclusão é a seguinte: mentimos o tempo todo para nós mesmos e para os outros. Só protestamos e chamamos de MENTIRAS quando ao final das contas as MENTIRAS causam algum prejuízo. Quando favorecem, chamamos de politicamente correto, ou qualquer coisa que o valha.
E, por último, mas não menos interessante: Erasmo!!
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A MENTIRA AGRADA MAIS DO QUE A VERDADE

O ESPÍRITO DO HOMEM É FEITO DE MANEIRA QUE LHE AGRADA MUITO MAIS A MENTIRA DO QUE A VERDADE. FAZEI A EXPERIÊNCIA: IDE À IGREJA, QUANDO AÍ ESTÃO A PREGAR. SE O PREGADOR TRATA DE ASSUNTOS SÉRIOS, O AUDITÓRIO DORMITA, BOCEJA E ENFADA-SE, MAS SE, DE REPENTE, O ZURRADOR (PERDÃO, O PREGADOR), COMO ALIÁS, É FREQUENTE, COMEÇA A CONTAR UMA HISTÓRIA DE COMADRES, TODA A GENTE DESPERTA E PRESTA A MAIOR DAS ATENÇÕES.
COMO É FÁCIL ESSA FELICIDADE! OS CONHECIMENTOS MAIS FÚTEIS, COMO A GRAMÁTICA POR EXEMPLO, ADQUIREM-SE À CUSTA DE GRANDE ESFORÇO, ENQUANTO A OPINIÃO SE FORMA COM GRANDE FACILIDADE, CONTRIBUINDO TANTO OU TALVEZ MAIS PARA A FELICIDADE. SE UM HOMEM COME TOUCINHO RANÇOSO, DE QUE OUTRO NEM O CHEIRO PODE SUPORTAR, COM O MESMO PRAZER COM QUE COMERIA AMBRÓSIA, QUE TEM ISSO A VER COM A FELICIDADE? SE, PELO CONTRÁRIO, O ESTURJÃO CAUSA NÁUSEAS A OUTRO, QUE TEMOS NÓS COM ISSO? SE UMA MULHER, HORRIVELMENTE FEIA, PARECE AOS OLHOS DO MARIDO SEMELHANTE A VÉNUS, PARA O MARIDO É O MESMO DO QUE SE ELA FOSSE BELA. SE O DONO DE UM MAU QUADRO, BESUNTADO DE CINÁBRIO E AÇAFRÃO, O CONTEMPLA E ADMIRA, CONVENCIDO DE QUE ESTÁ A VER UMA OBRA DE APELES OU DE ZÊUXIS, NÃO SERÁ MAIS FELIZ DO QUE AQUELE QUE COMPROU POR ELEVADO PREÇO UMA OBRA DESTES PINTORES E QUE OLHARÁ PARA ELA TALVEZ COM MENOS PRAZER?

ERASMO DE ROTERDÃO, IN “ELOGIO DA LOUCURA” (FALA A LOUCURA)

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