Motivação – discutindo o conceito.

Antes de abordar o tema Motivação propriamente dito, cabe aqui algumas observações que creio de grande importância para o entendimento do contexto em que esse artigo pretende se colocar.

Acho que o que mais confunde as pessoas é o fato delas partirem de uma palavra, supondo seu conceito, e supondo que o conceito é igual para todas as outras pessoas a sua volta.

[box type=”info”] Os pequenos e grandes problemas de comunicação nos levam a crer que devemos reavaliar exatamente esse conceito: de que podemos nos comunicar de forma clara, supondo que o nosso interlocutor tenha conceito igual a respeito do assunto tratado.[/box]

O simples fato de eu cumprimentar alguém, dizer “Bom dia, Como vai?” supõe toda uma expectativa da minha parte de que o outro tenha observado o dia, concorde comigo que é um “bom dia” que tenha observado o seu estado para me responder e de preferência que me responda “Bem, obrigado (a)” e também que não se prolongue muito.

Afinal, vivemos apressados!!

O nosso modo de comunicação supõe um mundo estruturado em múltiplos conceitos, a maioria dos quais, formados entre os humanos, muito antes de nós termos nascido.

Pegamos “o bonde andando” e, temos querido sentar “na janelinha”.

Outro fator de igual produção de confusão é a mistura de formas de pensamento que se colocam não só em publicações, mas também no dia a dia, seja em relações pessoais ou não.

Há pessoas que partem de um pressuposto filosófico para suas idéias, para argumentação e justificação lançam mão de outro, para conclusão de outro ainda.

Exemplo: motivação como processo interno e, de repente motivação é a promessa da promoção e/ou do salário (fator externo) e, de repente o fulano trabalha mais motivado porque tem a promoção e/ou aumento de salário como possibilidade de ocorrência (conclusão de muita teoria por aí) e assim vamos para a construção de nossa particular Torre de Babel, escrevendo de tudo, falando de tudo e significando nada!!

Motivação é uma dessas palavras que propõe esse tipo de raciocínio.

A bem da verdade, como vejo em grande parte das vezes, essa observação, da formação dos conceitos passa despercebida para a maioria das pessoas, inclusive muitas das que montam cursos, palestras, treinamentos.

Não só o conceito é tratado como comum, mas também a filosofia que o embasa.

Uma tentativa de pôr alguma ordem no discurso é:

1. Pensarmos que existem sistematizações propostas por estudos, já desde os gregos, onde o cuidado com a estrutura do pensamento organizava o modo de comunicação.

2. Pensarmos que ainda hoje temos acesso a esse estudo e que podemos tentar melhorar nosso entendimento do que seja o significado de uma palavra, seja no âmbito social, seja em âmbito individual.

3. Pensarmos que, se queremos nos comunicar de uma forma clara, e sermos entendidos e atendidos, precisamos urgentemente dar importância para a regularidade que possa ter sido encontrada por estudiosos.

4. Pensarmos que precisamos dar valor a nós indivíduos, como raça humana, e termos preocupação de entender a significação dos conceitos tanto para mim, quanto para o outro com quem estou querendo me comunicar.

Voltando a motivação, as formas mais comuns que se vê de definição dessa palavra, se referem a uma explanação do sujeito, em busca de algo externo a ele, que o anime a fazer algo.

É, nesse caso, comum atribuirmos a responsabilidade da consecução ou não da motivação ao fator externo ocorrer ou não. Por exemplo, se “tivermos um aumento de salário” trabalharemos com maior motivação, ou se o bônus for distribuído, ou se a empresa nos der um carro, estaremos mais motivados para o trabalho.

Apesar de a origem da palavra nos reportar a nós mesmos, insistimos em ignorar essa origem e, freqüentemente, responsabilizamos fatores externos em nos proporcionar ou não motivação.

Ora, se as definições da palavra motivação nos remetem a nós próprios, como podemos querer atribuir a motivação a fatores externos a nós?

Não consigo entender porque as pessoas pulam pedaços de raciocínio como se eles nunca tivessem existido, para que uma conclusão de sua argumentação “se encaixe”… Entre aspas, porque, na realidade nada se encaixa. O paradoxo da posição se estampa nas palavras acima.

O fato de “nós atribuirmos” motivação a fatores externos ou internos, nos coloca em uma situação bizarra.

Se NÓS atribuímos algo a alguma coisa, concordamos que o controle primeiro de qualquer atribuição está necessariamente em nossas mãos.

Quando atribuímos algo a fatores externos tais como ambiente, outras pessoas, salários, etc., estamos abrindo mão de parte de nossa auto – regulação, para dá-la a outros. Estamos abrindo mão da direção da nossa vida, para que outros a determinem ou dirijam. Estamos dando a outros o poder de dizer o que somos e como devemos ser. Estamos abrindo margem para sermos comandados dentro da nossa privacidade.

Outro problema de análise, se pensarmos nas definições que existem sobre motivação: veremos que se referem a uma espécie de força que temos, um processo que ocorre internamente.

Se pensarmos em um aumento de salário, bônus, seja lá o que for, poderemos notar que são “decorrências” de alguma coisa: pode ser de alguma atitude nossa, pode ser medo do patrão perder o empregado, pode ser que a empresa esteja interessada em demonstrar “responsabilidade social” tão em moda hoje, pode ser uma infinidade de coisas.

E, ingenuamente, os artigos e textos, trocam, nesse momento, o conceito de motivação por alguma decorrência que não se sabe muito bem, do quê.

“Decorrência” (fator externo) vira “Motivação” (fator interno). Colocamos em um mesmo contexto, coisas distintas, como se fossem uma só.

Definimos coisas distintas “motivação” (processo interno) e “decorrência” (bônus, aumento de salário, etc.) num só pacote que em ambas as circunstâncias se chamam “motivação”.

Estabelecemos uma relação causal entre os eventos e determinamos que é assim que as coisas acontecem. Estamos ou não montando mundos paralelos na nossa vida?

Vivemos ou não confusão total de entendimento a respeito de nossas próprias vidas e das relações entre eventos? Motivação então, no meu entender é algo do indivíduo.

O que ele vai ou não conseguir tendo a motivação é outro assunto.

Outro assunto tão sério como o que acabei de relatar acima, porque o “conseguir ou não” é uma coisa que somente a própria pessoa pode definir e considerar.

Em clínica, se você parte do pressuposto que o gosto, moral, caráter, conhecimento, etc., do seu cliente assemelha-se ao seu, você corre sério risco de fazer um trabalho ruim.

Os seus parâmetros não são necessariamente iguais aos dos seus clientes.

Houve épocas em que se estabeleceu nas empresas, sistema de prêmios por desempenho, remuneração, e já foi entendido que não é bem assim que as coisas funcionam.

Uma empresa paga seus funcionários para realizarem o trabalho para o qual é contratado.

A outra parte, o funcionário, recebe. Antes de receber, ele assinou um contrato com o empresário de realizar tal tarefa.

A motivação então é o fato de o empresário realizar as condições necessárias para que o funcionário desempenhe sua tarefa segundo contratado e o fato do funcionário realizar sua tarefa conforme sua palavra dada.

Prêmios, recompensas, são moedas de compra de qualidade de desempenho nesse caso. Isso não é motivação. É comércio pura e simplesmente entre empresário e funcionário.

Essa relação comercial que se estabelece entre as partes, torna a palavra dada anteriormente sem valor, pois coloca o desempenho à venda pela melhor oferta.
Iná Poggetti

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