Auto-Observação

O termo é bastante banalizado atualmente.
Várias teorias propõem a auto-observação. Mesmo Freud no filme “Freud Além da Alma” a praticava o tempo todo, pelo menos na visão de Sartre que escreveu e John Huston, que dirigiu.
Mas acredito que essa prática remonta à origem da humanidade.
Explico: A descoberta do fogo.
Só posso imaginar um antepassado meu descobrindo o fogo, a partir do momento em que ele observou o ambiente, e o que ELE fazia nesse ambiente para produzir tal maravilha.
Hoje, nem ao menos damos valor a essa descoberta. Ela passa despercebida aos nossos olhos e a encaramos como se o fogo SEMPRE tivesse existido. Outras descobertas dos seres humanos são vistas dessa mesma forma.

[box]Não concebemos o mundo como uma seqüência de acontecimentos, descobertas e melhorias, tendo existido muito antes de nós, mas o concebemos como algo estático, pronto parado. Não pensamos em termos de existência possível, por já ter havido outros povos que aperfeiçoaram muitas das coisas que temos hoje.[/box]
Mas, acredito que mentes criativas tenham esse sentido de observação bem aguçado.
O único problema é que como a maioria de nós vive em “estado de transe” absorvido pelos conceitos prontos, grudados neles, por medo do que possa ver além, essas mesmas mentes criativas, tendem a ser punidas pela comunidade em que convive.

Acredito, pelo exposto acima que auto-observação é algo “inerente” ao ser humano. O problema é que, no decorrer de nosso tempo aqui nessa existência, com nossas permissões de sermos influenciados por praticamente tudo o que nos cerca, tendemos a absorver somente o que está pronto e negligenciar nossas percepções e sensações que não se adequem ao que já existe.
Desperdiçamos, jogamos fora o que há de essência no ser. Abandonamos as particularidades em função de nos adaptarmos ao convencional.
Isso nos remete a uma forma muito “impessoal” de existir.

[box] As metáforas e conceitos que nós permitimos que rejam nossas vidas, nos remetem para fora de nós[/box]

A auto-observação pede um estado de observação interno, (correndo o risco de ser chamada de tautológica) questionamentos a respeito do que fazemos, como fazemos, quais sentimentos e emoções são gerados com as coisas que fazemos,o que pensamos e depois disso (é lógico que eu resumi), uma seleção do que devemos manter e do que devemos excluir.
Como excluir o que nos prejudica, nos derrota, nos torna incompetentes, incapazes, é o próximo passo. A questão de COMO fazer tal proeza é algo que ouço com freqüência no consultório.
Não é uma coisa que acontece da noite para o dia, da mesma forma que o modo atual como nos encontramos não foi firmado de um dia para o outro.
Consideremos cada um, a idade que tem e a tome como base para saber quanto tempo levou para estar a pensar e agir e sentir dessa forma.
Consideremos que, pelo menos de forma geral, fomos aceitando o que nos foi dado, sem questionarmos, sem criticarmos; na dependência de autoridades, que na nossa infância, eram os pais, depois os amigos, depois o que ouvíamos das “instituições”, etc.etc. etc.
Consideremos que, ao praticar a auto-observação, entramos em áreas intricadas do ser humano, em termos de emoções, valores, moralismos, questões de certo e errado (veja no índice o artigo “Ou isto ou aquilo”).
Complicado não é?
[box] Portanto, para começarmos a auto-observação, temos que independente daquilo que chamamos de “vontade” (que conceituamos como algo que nos comanda e nos domina, mas isso é assunto para outra discussão) devemos superá-la; entender que “vontade” não é um ente que nos comanda, mas sim um mecanismo criado por nós mesmos que nos mantém no estado de apatia, ideal para fazermos nada em favor de nós mesmos.[/box]
A primeira decisão que tomamos ao nos propormos auto-observação é a de independente do querer, da vontade, da preguiça, dos conceitos de stress, e outros tantos mais, vamos olhar para as coisas pelas quais nos deixamos levar. Incluindo as características acima.
Outra coisa que podemos observar é que as palavras, a nossa língua é cheia de sentimentos. Uma auto-observação pertinente é identificar qual sentimento, emoção, as palavras nos provocam; cada uma delas.
A entonação das palavras além das mesmas nos provoca sentimentos, emoções. Atenção é necessária a isso também.
A boa pergunta da auto-observação é “COMO eu estou olhando, sentindo, percebendo, o que me está sendo falado? Como eu mudo isso? Como eu sigo em frente depois disso?”. E por aí afora.
Deixe-me fazer um pequeno parêntesis aqui: Você já deve ter percebido que não uso “POR QUÊ?”. E se usei em algum lugar, foi por pura distração.
A pergunta “por quê?”, no meu entender, nos leva a procurar uma causa; em geral uma causa fora de nós. Essa análise do “por quê”, nos conduz a caminhos prontos. Explico melhor:
[box] A filosofia em que se baseia a Ciência, tenta por todos os meios estabelecer a relação de causa e efeito entre os seus objetos de estudo, sejam eles quais forem no momento da pesquisa. A nossa cultura está impregnada desse pensamento filosófico, e em todas as áreas temos o vício, adquirido por séculos em que esse pensamento domina, de buscarmos essa relação. Essa relação é dada pelos conceitos prontos, justamente aos quais me referi. Os conceitos prontos, obviamente já estão prontos, e você vai se ver rodando em círculos ao fazer essa pergunta. Ou seja: “É mais fresquinho porque é Tostines ou é Tostines por que é mais fresquinho?”.[/box]
Então… vamos supor que você insista em fazer tal pergunta: “Por quê?”
Vamos dizer que descobrimos que “a rebimboca da parafuseta falhou”.
E vamos nós de novo… “Por quê?”
Porque a parafuseta está girando em falso.
Por quê?
Porque os vincos da parafuseta estão gastos.
Só para não torrar mais, digamos que decidimos parar por aí ou então, chegamos à causa primeira de todas as coisas: Porque Adão aceitou a maçã de Eva? Ou será: Porque Eva aceitou a maçã da serpente?
A questão é: do que nos adiantou chegarmos à causa, se hoje ela pode nem estar presente mais em nossas vidas (ver motivação – a história dos cinco macacos).
Como vamos eliminar Adão e Eva das nossas vidas??
Tá, tá, tá, você aí com mente mais científica vai dizer que eu exagerei… E pode ter razão, mas não se esqueça que, diferentemente de experimentos controlados, o ser humano não está num ambiente experimental; pelo menos esse ao qual me reporto.
Se você não ficou convencido com a troca do “por que” pelo “como”, tudo bem!!; Temos diferenças de opiniões e experiências.
A minha continua me dizendo que é pelo menos, “menos pior”.
Acho “como” uma pergunta mais apropriada para a auto- observação. Talvez isso exija mais esforço de nossa parte, mas, de qualquer forma começa já sendo um exercício para pensar de forma diferente.
[box] Para encerrar este artigo, resumidamente digamos que: para a prática da auto-observação, um bom início é considerarmos seriamente QUEM SOMOS O QUE GOSTAMOS EM NÓS QUE DEVE PERMANECER, O QUE QUEREMOS MUDAR.[/box]
A partir dessa descoberta mais didática, podemos partir para pôr em prática as perguntas dos “comos” e tentarmos respondê-las. E, meus amigos, seguramente não sãos os outros que poderão nos dar as respostas, mas nós mesmos.
Não digo que não podemos buscar auxílio, mas se recebermos esse auxílio tem que ficar claro para cada um, que CADA UM ASSUMIU A RESPONSABILIDADE POR USAR TAL AUXÍLIO e, portanto É RESPONSÁVEL PELOS RESULTADOS QUE CONSEGUIR.

Iná Poggetti

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